A abertura do ciclo de leituras da SATED - RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado do Rio de Janeiro), realizou no dia 9 de março de 2016 (quarta feira), a apresentação da leitura dramatizada do roteiro "Mural Mulher", de João das Neves, com direção de Ana Zettel; que em 2015, concedeu gentilmente depoimento ao blog do Divã Cultural, quando da divulgação de seu espetáculo "Otto Lara Resende ou Bonitinha Mas Ordinária". Este evento integrado a outras leituras dramatizadas, que irão se realizar no espaço da SATED, constituem um tributo ao autor João das Neves. No grande elenco de "Mural Mulher", destacam-se: Ana Felipe, Cris Cardoso, Clicia Zoe Brandão, Dada, Danielle Dias, Eli Ferreira, Gedivan Albuquerque, Jikah Oliveira, Júnior Vieira, Lilian Araújo, Kika Danttas, Marina Azevedo, Márcia Di Milla, Mírian Panzer, Nadja Bandeira, Neyde Braga e Yara Brazão. Na platéia, a presença do diretor João Procópio Neto, que irá dirigir dentro deste ciclo, o roteiro "A Pandorga e a Lei".
Este ciclo de leituras dramatizadas intitulado "O Teatro Na Cena Política", faz uma justa homenagem ao escritor, dramaturgo, ator e diretor, João das Neves; um dos fundadores do Grupo Opinião, juntamente com Ferreira Gullar, Vianinha, entre outros grandes nomes fundamentais do teatro brasileiro. Em praticamente todos os principais momentos do teatro no Brasil, nos últimos 60 anos, o artista João das Neves estava presente. Este renomado encenador também tem uma história particularmente bela com a música, tendo dirigido importantes nomes da MPB, como Milton Nascimento, Chico Buarque, MPB4 e Taiguara. Na sequencia de imagens abaixo, um registro dos vários momentos do evento "Mural Mulher", e a agenda das demais apresentações do ciclo de leituras.
A diretora Ana Zettel e o grande elenco de "Mural Mulher"
Ana Zettel com o Presidente do Sindicato Jorge Coutinho
A amiga Danielle Dias em cena
A atriz e diretora Leia Garcia, Anna Kessous, Clicia Zoe Brandão, Márcia Di Milla e a diretora Ana Zettel
Entrevista com os atores Jarbas Homem de Mello e Giselle Lima
Entrevista com o ator Rui Rezende
O cantor e compositor Zeca Baleiro foi o responsável pela original colagem de diversos textos do universo jornalístico "nelsonrodriguiano", em sintonia com as canções que também concebeu, para o espetáculo musical "A Paixão Segundo Nelson - uma farsa musical brasileira". Nas palavras de Zeca Baleiro, "a proposta é fazer um espetáculo original, compilando várias facetas das obras de Nelson Rodrigues. Apesar de considerar suas peças brilhantes, acho que a melhor literatura do Nelson está nos textos jornalísticos". Isto porque o roteiro da peça se baseia nas obras "A Vida Como Ela É"; "Myrna - Não Se Pode Amar E Ser Feliz Ao Mesmo Tempo"; "A Cabra Vadia" e "À Sombra Das Chuteiras Imortais". O ambiente dramatúrgico, se passa numa rádio fictícia dos anos 50, onde os dramas suburbanos do inesquecível escritor, são vivenciados em programas esportivos, de conselhos sentimentais, números musicais e de rádio novela. A diversificada trilha sonora é executada ao vivo durante o espetáculo. No elenco: Helena Ranaldi, Vanessa Gerbelli, Jarbas Homem de Mello, Rui Rezende, Giselle Lima, Roberto Cordovani, Marcos Lanza, Lula Lira. Direção: Debora Dubois. Em curtíssima temporada no Rio, de 26 de fevereiro a 13 de março; o musical está em sua última semana: quinta, às 21:00 hs; sexta, às 21:30 hs; sábado às 21:00 hs; domingo, às 20:00 hs. Imperdível !
A combinação de um clássico, constante nos palcos brasileiros a outro, uma comédia política, raramente montada em nosso cenário teatral, estabelecem um diálogo bastante peculiar, tanto pelos seus contrastes como complementaridades, resultando numa terceira possibilidade de percepção humana em torno da morte, do poder e do medo. Assim, o diretor Ron Daniels, brasileiro radicado em Londres, um dos principais nomes da "Royal Shakespeare Company", concebeu este encontro harmonioso e inusitado, entre as montagens de "Macbeth"e "Medida Por Medida", integrando o projeto "Repertório Shakespeare". Atores de diferentes gerações e estilos, revezam-se em múltiplos personagens, integrando o elenco fixo das duas peças: Thiago Lacerda, Giulia Gam, Luísa Thiré, Marco Antônio Pâmio, Felipe Martins, Ana Kutner, André Hendges, Fábio Takeo, Lourival Prudêncio, Lui Vizotto, Marcos Suchara, Rafael Losso, Stella de Paula e Sylvio Zilber; formam esta trupe de talentosos artistas.
Em "Macbeth", no caos da guerra, o mundo se apresenta como um feroz e inescrupuloso campo de batalha. E Shakespeare nos pergunta: De onde surge o mal ? Em que parte da alma, reside a semente nefasta da ambição sem limites, que nos leva a matar ? Como lidar com a consciência dos crimes cometidos, quando o sangue derramado, ao refletir nosso semblante, exige incansavelmente, cada vez mais sangue; sem permitir aos assassinos nenhum instante sequer de sono, quietude ou repouso ? Vivendo entre o crime e a culpa, morrerá também o amor ? Em "Medida Por Medida", Shakespeare nos convida a conhecer outro tipo de caos; aquele que acontece nos tempos de paz, aguçando o imediatismo dos desejos carnais; o furor por um sonho de liberdade, que para interpretação de muitos, estaria transformando o mundo num grande bordel. E eis a pergunta que o bardo poeta, agora nos faz: Se somos seres tão falíveis; se desconhecemos a face sombria da própria alma, como podemos julgar uns aos outros ? A trama espelha uma sociedade povoada por homens de impactante poder e também por padres e freiras; prostitutas e cafetões; bêbados e arruaceiros; pessoas de uma alegra simplicidade, que levam a vida nas ruas, nos conventos, nos randevus ou mesmo, encarceradas nas prisões da cidade; algumas, aguardando a sentença de morte. Em um mundo assim, poderá surgir o amor de forma inesperada, triunfando sobre o puritanismo e a libertinagem ? Depois de muito tempo governando de maneira displicente, sem policiar os excessos de uma sociedade insatisfeita, ávida por esperança; o duque de Viena, resolve mudar as regras do jogo, impondo radicalmente o paternalismo do Estado sobre o indivíduo; valendo-se de uma estratégica artimanha: transfere o poder ao subordinado direto, Ângelo (Thiago Lacerda), homem considerado por todos de zelosa reputação e rigorosos valores éticos, designando-o para conter a volumosa disseminação da imoralidade e da corrupção. No entanto, sem abandonar a cidade, o duque lá continua, observando as mudanças que estão por acontecer, disfarçado de frade (túnica longa e capuz); ora obtendo a perspectiva das ruas, escutando o povo; ora dos corredores do palácio. Ângelo ordena o fechamento dos bordéis da periferia, reinstaurando uma lei capaz de punir com a morte, qualquer ato interpretado como"abuso sexual". Quando o jovem Claudio é preso, acusado de engravidar a noiva antes do casamento e sentenciado à morte; sua irmã, uma noviça; encoraja-se a apelar para o rígido governante, a fim de que Ângelo possa rever o veredito pela decapitação do condenado. O que a noviça Isabella (Luísa Thiré) não contava, é que a paixão inesperada de Ângelo por ela, fizesse aflorar o cinismo do interino governante, que chega a lhe propor, louco de desejo, trocar a liberdade do rapaz, por sua virgindade. Após a revolta inicial, Isabella resigna-se a ceder. Mais uma vez, subjugado pela fraqueza da carne, Ângelo não consegue cumprir a palavra que empenhou; mantendo a sentença. Testemunha ocular e ao mesmo tempo oculta, de tantos confkitos de sentimentos e imprevistas transformações de caráter, o duque, supostamente retornando de sua viagem, elabora um plano, aproximando-se da virtuosa Isabella, para desmascarar todas as intolerâncias, através de uma trama insuspeitável. No caso da teia de acontecimentos de "Macbeth", a ambição pelo poder, assume consequências trágicas e irreversíveis. General heróico, de uma coragem sem precedentes, Macbeth retorna de mais um triunfo em batalha, do qual o rei da Escócia é amplo conhecedor, Tendo retornado recentemente do clamor da guerra, o general é tentado por três criaturas misteriosas, que lhe fazem a seguinte saudação: "Salve Macbeth, que um dia será Rei !" As feiticeiras alertam que será num futuro muito próximo. Ao tomar conhecimento da profecia, Lady Macbeth (Giulia Gam) instiga o marido a assassinar o atual rei, Duncan. Quando o crime é descoberto, Malcolm e Donalbain, filhos do antigo rei, sentindo-se ameaçados, decidem fugir. Macbeth é coroado; mas para se manter no trono, o outrora súdito, honroso general, descobre que derramar sangue alheio acaba por exigir mais sangue, para silenciar a potencial ameaça de segredos revelados, mantendo assim o poder intocável. Desencadeiam-se novos assassinatos, como o de testemunhas e filhos das vítimas. Com o tempo, a alma do protagonista é tomada de assalto pelo medo. Macbeth alucina; sua consciência não lhe permite dormir, fazendo o traidor acordar para o pesadelo particular. Meticulosa estrategista, sua esposa fica a remoer as razões dos atos e desejos em permanente estado de sonambulismo. No exílio, Malcolm planeja invadir o país e destronar Macbeth. Enquanto o rei impiedoso na solidão do poder, acredita ainda estar protegido pelo presságio das irmãs feiticeiras, o exército invasor avança, para cumprir sua vingança. Ao final de ambos os espetáculos, a pergunta feita pelo personagem do duque, em "Medida Por Medida", parece aflorar naturalmente em nossa memória: "Vamos ver se o poder muda com os homens o os homens mudam com o poder".
Com Luísa Thiré, protagonista da peça "Medida Por Medida"
Com Thiago Lacerda, protagonista de "Macbeth"
"Estamos trabalhando nas duas peças de Shakespeare, uma tragédia e uma comédia; com o mesmo diretor, Ron Daniels, mesmo elenco, se revezando em vários papéis; tanto no Macbeth, quanto no Medida Por Medida, que foi menos traduzida e que gera muita curiosidade. É Shakespeare em dois estilos diferentes, onde os atores vivem essa diversidade, esse lado lúdico do Teatro". (Giulia Gam)
Lembranças de Giulia Gam, quando convidada por mim, para o encontro "Shakespeare e a Psicanálise", no Instituto São João Baptista, durante evento com os alunos do Ensino Médio. Na época, além de professor de Psicologia, atuava como Promotor Cultural da instituição; e a atriz Giulia Gam realizava a primeira palestra de sua vida (1993).
Nos bastidores de "Repertório Shakespeare", com Rodrigo Lombardi, Adriana Esteves e Fernanda Montenegro,
Na imagem abaixo, a lembrança inesquecível, da Dama do Teatro, Fernanda Montenegro.
A primeira turma de formandos da Escola de Atores Wolf Maya, sob a direção do professor Alexandre Mello, encenou nos dias 22,23 e 24 de fevereiro de 2016 o clássico de Bertold Brecht, "A Alma Boa de Setsuan", peça escolhida para a culminância do curso.
O enredo desta obra consagrada, um marco do teatro moderno, foi apresentada pela primeira vez em 1940; porém sua abordagem parece se renovar com o passar das décadas, atingindo uma atemporalidade temática, capaz de aproximá-la da realidade mais visceral da criatura humana. Na montagem proposta por Brecht, os deuses são personificados de forma cômica e descompromissada; buscando na Terra uma alma boa para salvar, tarefa árdua, de ser cumprida. Chegando à província de Setsuan objetivando um lugar para pernoitar, percebem que ninguém lhes dá abrigo, a não ser a jovem prostituta, chamada Chen Tê. Comovidos por sua generosidade e certos de terem encontrado sua boa alma, os deuses a premiam com uma considerável quantia em dinheiro. Feliz com seu prêmio, ela deixa de se prostituir e monta um comércio, uma tabacaria. A partir daí, começam os conflitos. Pessoas da região que nem a consideravam, passam a se aproximar para obter vantagem de sua conduta benevolente. A índole de Chen Tê, a impedia de negar auxílio; sendo em breve vitimizada economicamente pela incompatibilidade entre o exagero da bondade e a fria realidade dos negócios. Antes que fosse à falência, ela então, decide criar um alter ego, travestindo-se masculinamente como um primo distante que vinha visitá-la e ajudá-la nos negócios, chamado Chui Tá. Este sim, consegue negar, exigir direitos, chegando mesmo a revelar-se antiético, com capacidade para atos maus, para obter o respeito desejado.
Entre tantos temas veiculados, inclusive o precioso elemento literário do amor, Brecht propõe a reflexão sobre a possibilidade dos valores virtuosos sobreviverem, em um mundo de interesses egocêntricos, onde somente o medo e a certeza do sofrimento, seriam capazes de coibir os abusos. Mas por sua vez, seu texto também nos alerta, que sem o devido toque de generosidade, toda uma sociedade também pode ser igualmente conduzida ao caos.
Entrevista com o ator e diretor do espetáculo Wolf Maya
O ator Tadeu Aguiar em breve depoimento
Inaugurando o mais novo polo cultural da Barra da Tijuca, o Teatro Nathalia Timberg; o idealizador e empreendedor Wolf Maya, dirige e atua no espetáculo "33 Variações de Beethoven"; viabilizando artisticamente, dois grandes eventos: homenagear sua amiga, mentora e musa de tantos trabalhos em conjunto, Nathalia Timberg; e ao mesmo tempo, trazer em primeira mão para o público carioca, a montagem de um dos maiores sucessos da Broadway, dos últimos oito anos, que marcou a despedida da atriz Jane Fonda dos palcos; consagrado internacionalmente como o primeiro musical erudito do mundo. O texto do venezuelano Moisés Kauffman, um dos mais importantes da dramaturgia mundial; foi escolhido, traduzido e apresentado como proposta para ser montado no Brasil, pela própria atriz Nathalia Timberg. Ela interpreta a protagonista, uma musicóloga e historiadora, Katherine Brandt, que pesquisa as sutis e conturbadas nuances de relacionamento entre os artistas envolvidos no processo de elaboração por Beethoven das 33 variações sobre uma valsa; considerada por ele mesmo, medíocre, quando escrita no século XIX, pelo compositor austríaco Anton Diabelli. Este, sabedor das limitações que seu trabalho encontraria no cenário musical da época, decide entregá-la para alguns renomados compositores que objetivassem aperfeiçoá-la. O único a rejeitar inicialmente o convite, fora justamente Beethoven. No entanto, algum tempo depois, ele volta atrás e surpreendentemente exige que ninguém mais trabalhe na valsa, monopolizando-a como foco de interesse estético, por longo tempo, numa crescente obsessão. A historiadora busca saber o que levou Beethoven a mudar sua decisão e que intenções se escondiam, no decorrer da elaboração das 33 variações propostas. A trilha sonora de Beethoven, ao longo do espetáculo, tem como co-protagonista em cena, a pianista Clara Sverner, musicista brasileira de formação erudita, que habituada a trabalhar com orquestras, pela primeira vez, conduz um espetáculo teatral. Na riqueza de talentos do elenco, contamos com o próprio diretor Wolf Maya, que retorna ao palco, depois de quase dez anos; Tadeu Aguiar, Lou Grimaldi, Flávia Pucci, Gil Coelho e Gustavo Engracia. O espetáculo também conta com a colaboração técnica e artística de jovens talentos escolhidos da própria Escola de Atores Wolf Maya; estabelecimento que juntamente com a grande sala e o Nathalinha, espaço alternativo para diversificadas apresentações, formam este belo complexo cultural, tendo como expoente, o Teatro Nathalia Timberg.
O Divã Cultural esteve presente no evento organizado pela psicóloga e atriz Cecília Dassi, intitulado "MEU FILHO È ARTISTA: COMO MANTER O EQUILÍBRIO DA DINÂMICA FAMILIAR E DA CRIANÇA QUE TRABALHA"; realizada no auditório do Shopping Midtown, na Barra da Tijuca - Rio de Janeiro, no dia 18/02/2016. Confira a entrevista acima.
Neste primeiro Vida In Cena de 2016, procurei selecionar para o slide show, algumas imagens da minissérie brasileira "Ligações Perigosas"; assim como um mosaico com passagens do filme britânico de mesmo nome, do cineasta Stephen Frears, concorrente ao oscar de 1988; a fim de demonstrar a complexidade histórica do ato de confiar. Além disso, inseri imagens de três representativos personagens da novela "A Regra do Jogo": Romero, Atena e Tóia. O motivo que me levou a escolher a interação entre estas obras, de linguagens estéticas tão diversas, é que a essência dos folhetins tem uma natureza cíclica e muito parecida em seus elementos arquetípicos; ou seja, da tragédia grega ao teatro shakespereano; do cinema de François Troufault, Hitchcock, ou mesmo Woody Allen, à última ousadia de Quentin Tarantino, as inquietações do espírito humano, em torno da conquista da confiança ou iminência de perdê-la estão no epicentro dos mais diversos dramas da civilização; impulsionando ambivalentes respostas afetivas, que vão do ódio à volúpia de vingança; do desencanto à expectativa de redenção.
Em "Ligações Perigosas", por exemplo, tanto no cinema quanto na versão televisiva, a trama retrata o embate entre a malícia e a ingenuidade; o desejo e a virtude; a perversidade e o amor. Num ambiente de luxo e sofisticação, um homem e uma mulher, pactuam um jogo letal de interesses narcísicos, onde as peças do tabuleiro, representam a boa fé de suas vítimas; pessoas de quem deverão conquistar a amizade e a confiança, apostando todo poder de sedução, na possibilidade sádica da entrega amorosa absoluta, de seus parceiros, com a garantia premeditada da ausência de qualquer compromisso com os envolvidos. Como passatempo, tecem planos, estabelecem metas, valendo-se de sua amoralidade, apenas para provar que não são manipuláveis e descartáveis como os outros, podendo controlar soberanamente os próprios sentimentos. Em "A Regra do Jogo", Romero Rômulo e Atena, interagem com a sociedade a partir de um arsenal de mentiras, de máscaras de conduta igualmente descartáveis, manipulando a vida de quem dele se aproxima, ora pela fria e estratégica postura do xadrez; ora pela camuflagem da expressão emocional, blefando com indisfarçável segurança, como se estivessem numa mesa de pôcker.
Em "Ligações Perigosas", o ato de instigar a possibilidade da entrega amorosa, para depois provocar o abandono, acaba envenenando os próprios algozes; levando o atípico casal Valmont e Isabel a sofrer ainda que tardiamente, as consequências da culpa, do desprezo e da solidão. Em "A Regra do Jogo", Atena apesar da retórica individualista, sarcástica, resistente à ideia de voltar a confiar no outro; a partir do relacionamento com Romero, a quem considera sua alma gêmea, passa a viver na contradição de sentimentos, lutando para equilibrar-se na corda bamba entre a confiança do amor e o escapismo da sobrevivência a qualquer custo. Romero por sua vez, também se deixa aprisionar no mesmo limbo. Aproximou-se de Tóia por interesses escusos, acreditando estar protegido de qualquer vínculo afetivo, pelo pragmatismo da cobiça e da vaidade, que o mantinham protegido da consciente e desesperadora perda da esperança, tanto em relação a si mesmo como de qualquer outra pessoa, que dele se aproximasse. Romero não contava ser alvo da mesma armadilha sentimental que vitimou os interesses de Augusto Valmont e Isabel, na minissérie "Ligações Perigosas". Apesar da amoralidade de suas atitudes, Romero não preenche os requisitos clássicos de um psicopata. Ao estreitar o relacionamento com Tóia, vivencia toda a confiança e transparência de caráter que projetava nele, tornando Romero amaldiçoado por sua dualidade de propósitos; pela vontade de reinventar-se num roteiro de vida que infelizmente não perdoa mudanças; fazendo-o oscilar entre a perspectiva de fuga e o confronto suicida, mas definitivamente, contaminado pelo resgate, agora não mais utópico, da capacidade de confiar e amar alguém. Já a personagem de Tóia, por sua vez, vivencia a decepção daquele que acredita na ingênua legitimidade de seus princípios, até vê-los derrotados pela falsidade, de quem um dia mereceu a sua confiança. Situação similar encontramos também em "Ligações Perigosas", quando a virtuosa Mariana se entrega à melancolia, adoecendo até a morte após ser abandonada por Augusto Valmont, perdendo a confiança em seu amor.
A partir desta análise comparativa, podemos observar que não é exatamente a mentira, que afeta o bem estar da humanidade. Psicologicamente ela faz parte de um amadurecimento progressivo da própria consciência e em algumas situações, mentir para si mesmo ou para quem se ama, pode ser a única alternativa para se preservar a sanidade em tempos sombrios; como evidenciado no filme "A Vida é Bela". O problema é quando a mentira se banaliza no cotidiano das relações; transformando-se num "esporte", a ser praticado por quem nunca desejou mostrar a verdadeira face; enraizando-se na amizade, no amor ou numa parceria, durante anos; para então descobrirmos que interagíamos com uma farsa em forma humana. Como bem disse o filósofo Nietzsche: "Fiquei magoado não por teres me mentido; mas por não poder voltar a acreditar-te".